De volta ao passado

As fazendas ganharam um novo significado em 2020. Além de fonte de produção e local preferido para dez de cada dez pecuaristas, elas se tornaram refúgio durante a quarentena. Para garantir distanciamento social, criadores fecharam as casas na cidade e foram “pra fora” com filhos e netos. Mais do que uma estratégia para manter as famílias reunidas e seguras, o movimento permitiu uma volta ao tempo em que gerações compartilhavam seus dias e ensinamentos no campo.

Um exemplo de quem aproveitou a quarentena para abrir as gavetas e revisitar o passado foi o criador Fernando Pons, proprietário da Parada Pons, em Dom Pedrito (RS). Ao lado de esposa, filhas e netos, o pecuarista retornou ao ano de 1850 – data em que a propriedade foi adquirida. Fundada pelo imigrante espanhol Martin Pons, a fazenda se mantém na ativa há quase dois séculos. No início, o território de 20 hectares funcionava como um armazém, com venda de tecidos, alimentos e artigos de armarinho. Com o tempo, os negócios se expandiram e foram passando de pai para filho. Atualmente, a propriedade tem três mil hectares e é comandada pela quinta geração da família Pons. A casa, construída na época, segue com a mesma estrutura, tendo sido reformada pela última vez em 1934.

Pandemia reuniu gerações dos Pons em Dom Pedrito/ Crédito: Fernando Pons

Andar pela fazenda durante o isolamento social foi como voltar no tempo. Pons lembra que ficou sabendo das histórias da propriedade ainda na infância, quando ouvia os causos narrados com entusiasmo pelo avô. Memórias que acenderam no menino o desejo de continuar no ramo e que voltaram a ser contadas, agora, aos netos. “Nossa vida sempre foi dividida entre a cidade e o campo, mas nunca havíamos ficado tanto tempo juntos no mesmo lugar. Eles passam o dia na lida, andando a cavalo e criando novos valores”, conta.

A primeira ligação da propriedade com a pecuária veio a partir da raça inglesa Shorthorn. A evolução no agronegócio deu vida à Capanegra Agropecuária, empresa que tem em seu escopo a criação de gado, cavalos crioulos e cultivo de arroz irrigado e soja. Além da Parada Pons, outras três cabanhas gaúchas dão continuidade ao empreendimento: Santana Velha, em Uruguaiana (RS), Posto Branco, em Quaraí (RS), e Cerrito, em Santana do Livramento (RS). Em 1997, a quinta geração decidiu investir na Angus. De acordo com Pons, a família foi uma das pioneiras em expandir a raça pela região de Bagé (RS). O cuidado com o plantel de 2.500 cabeças hoje conta com a ajuda das filhas Fernanda Pons Magalhães e Cristiana Pons Severo, que, ao lado do pai, começam a construir a trajetória da sexta geração. “A minha vida inteira está na fazenda, e ver minha família seguindo o mesmo caminho me enche de orgulho”, pondera Pons.

Crédito: Fernando Pons

Outro criador que optou por ficar na propriedade foi Renato Ramires. A Cabanha 3E Agropecuária, em José Bonifácio (SP), é fruto de uma sociedade entre amigos fechada em 2004. No mesmo ano, o negócio acabou ficando sob a responsabilidade de Ramires, que investiu na genética Angus. O plantel de 250 cabeças é comandando por ele e pelas filhas Camila e Nathalia Ramires. Formado em engenharia civil, o proprietário considera a fazenda a concretização de um sonho. “O rancho é aquele desejo gigante que se tornou realidade”, destaca.

Com a pandemia, Ramires também optou por manter a esposa, as filhas e netas reclusas na propriedade. A decisão acabou unindo a família, que intensificou sua participação ativa na rotina da 3E Agropecuária. Para o criador, a mudança ressignificou o olhar das novas gerações na fazenda. “Já consigo imaginar meus netos e seus futuros filhos dando sequência ao trabalho que eu iniciei”, reforça.

O terreno de apenas 85 hectares começou de forma simples, mas foi crescendo com a dedicação da família. Coberta de mata nativa, a propriedade também é lar de animais selvagens como jaguatiricas, tamanduásbandeira, lobos-guarás, raposas e uma quantidade imensa de pássaros. Para ajudar na preservação do local, Ramires já plantou mais de 1.800 árvores frutíferas. “A sinergia entre a pecuária e a natureza sempre me encantou”, explica.

A história da cabanha é contada através de quadros pendurados nas paredes da casa. Com foco em seleção de genética adaptada ao Brasil Tropical, a propriedade se mantém em destaque na Região Sudeste. Na agricultura, a família aposta na plantação de seringueira, cacau e banana. Além das atividades na 3E Agropecuária, Ramires atua como presidente do Núcleo de Criadores Angus de São Paulo. “Sempre buscamos incentivar novos criadores a investir na raça, pois sabemos os benefícios que a Angus traz.”

Renato Ramires, esposa e netos juntos em José Bonifácio (SP)/ Crédito: Arquivo Pessoal

Um pouco de história
A formação das fazendas no Brasil vem da era colonial, quando, entre 1500 e 1815, imigrantes portugueses que chegaram ao lado da família real para povoar o território trouxeram consigo a esperança de terras prósperas. A Coroa Portuguesa decidiu implantar, em 1534, um sistema administrativo que dividiu o Brasil em 15 grandes extensões de terra, as chamadas capitanias hereditárias. Segundo a historiadora e professora aposentada da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Ester Gutierrez, que dedicou anos de sua vida acadêmica à pesquisa científica desse período, os lotes foram doados para homens nobres e de confiança do reino, que receberam a responsabilidade de povoar as regiões com animais, o que praticamente não aconteceu. “O primeiro registro de gado nas terras foi na capitania de São Vicente, hoje São Paulo, quando o português Martim Afonso de Sousa introduziu o gado trazido de Cabo Verde, originário de Trás-os-Montes, Portugal”, explica. Alguns anos depois, um novo carregamento teria sido feito em Salvador, expandindo a criação para o Nordeste.

As capitanias, no entanto, não foram consideradas empreendimentos de grande sucesso. Os donatários hereditários distribuíram terras entre os interessados em instalar-se no Brasil, que tinham a obrigação de tornálas produtivas e pagar impostos à Coroa. Essa relação acabou causando conflitos entre a administração e os fazendeiros. “O governo luso reforçava a ação fiscal que recaía sobre os animais e o couro, e não sobre as terras, que eram gratuitas”, destaca Ester. De acordo com a historiadora, a comercialização de hectares entre a população livre só foi possível a partir de 1850, quando Dom Pedro II sancionou a Lei da Terra. A legislação determinou parâmetros e normas sobre a posse, a manutenção, o uso e a venda dos terrenos. Assim, iniciou-se uma nova fase na expansão agrícola brasileira. A lei transformou a terra em mercadoria, e introduziu-se o conceito de posse.

Hoje, segundo os dados do IBGE, o Brasil tem mais de 2,6 milhões de estabelecimentos rurais, muitos deles dedicados à pecuária. Mais do que uma atividade que coloca o Brasil na vitrine mundial, o agronegócio que conhecemos nada mais é do que o fruto de anos de dedicação de famílias em suas muitas gerações.

Construída em 1885, a sede da Parada Pons é abrigo da família e história viva da pecuária gaúcha/ Crédito: Arquivo pessoal

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