Efeito China

O apetite voraz dos importadores chineses pela carne brasileira trouxe reflexos diretos no mercado de cortes Angus em 2019 e deve seguir aquecendo as vendas em 2020. Segundo projeções da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), a previsão para o próximo ano é elevar em 13% as exportações em volume e 15% em faturamento, movimento que deve ser consolidado também com embarques para Rússia, Indonésia e Estados Unidos. Segundo a diretora executiva da Abiec, Liège Nogueira, depois de fechar 2019 com alta de quase 11%, o cenário é bastante promissor para o período que se inicia. “Além desses três mercados, temos a China que sinaliza com a habilitação de novas plantas, o que deve resultar em mais vendas”, informa. Se as previsões estiverem corretas, o Brasil deve embarcar 8,5 bilhões de dólares e 2,06 milhões de toneladas de carne bovina em 2020.

Para se ter uma ideia da força com que a China entrou no mercado nacional, até outubro deste ano, o país oriental importou 1,64 bilhão de dólares em carne bovina do Brasil, acima do 1,48 bilhão de dólares de todo o ano de 2018. Cargas que incluem cortes Angus que teriam como destino o mercado interno.

O movimento trouxe impacto direto nos números do programa Carne Angus e deve seguir influindo nos negócios em 2020. Segundo balanço preliminar de 2019, o abate certificado de animais Angus atingiu 416 mil cabeças até novembro, 7,3% mais do que em 2018 no mesmo período. Mas poderia ter sido maior, indica a gerente do Programa Carne Angus, Ana Doralina Menezes. “A China já importava carne bovina do Brasil, porém, em 2019, esse impacto foi maior devido à habilitação de novas plantas, especialmente no segundo semestre do ano. Acreditamos que isso deva trazer reflexos aos mercados como um todo, sinalizando, inclusive, com elevação de preço da carne e valorização dos animais.” Mas é importante pontuar, alerta ela, que altas abruptas sempre podem ser precedidas de ajustes, como o verificado nas últimas semanas deste ano.

A estimativa é que o preço dos cortes Angus tenha acompanhado o mercado de carne, com alta de cerca de 30% a 40% nos últimos meses. O mercado mais impactado é o de cortes para churrasco, devido ao aumento típico desta época, quando as famílias brasileiras tradicionalmente demandam esses cortes devido às festas de fim de ano. “O mercado chinês cresceu muito e pega exatamente o nicho do boi Angus, pois para a exportação os animais devem ter no máximo até quatro dentes, ou seja, animais mais jovens e de qualidade. A realidade que temos hoje é que parte de nosso produto está sim sendo exportado.” Junto com a alta do preço da carne, também o que se vê é a valorização dos animais para abate, o que beneficia o criador que tem animais para vender neste momento.

O consultor e leiloeiro Guilherme Minssen, confia que a valorização da carne deve respingar sobre o mercado de exportação de boi vivo. “E esse mercado precisa ser preto e mocho”, pontuou, sobre a soberania da raça Angus.

“A China mudou o cenário mundial. Com a Peste Suína Africana que atingiu o seu rebanho, houve uma quebra de cerca de 40% na produção de carne suína chinesa. Como consequência direta, a China teve de buscar em outros países proteína não só de origem suína para abastecer a sua grande demanda, já que a população é muito grande. No Brasil, esse agente influenciou muito o mercado somado à redução de animais prontos para abate, e o aumento do abate de fêmeas observado nos últimos anos. O resultado foi uma supervalorização rápida, chegando a valores recordes, tanto que o preço do boi gordo era corrigido quase que diariamente”, comenta Ana Doralina.

A tendência altista de preços levou muitos pecuaristas que tinham boi gordo no pasto a segurar seus animais à espera de cotações ainda maiores. “Quando sobe tão rápido, o produtor segura. Estávamos saindo da fase de abates em alta que é tradicional para este período. Essa queda de novembro indica a retenção em função exatamente dos preços.” Ana Doralina pontua que os abates vinham contidos até o segundo trimestre do ano. Foi no terceiro trimestre, ressalta ela, que o mercado começou a se aquecer. O terceiro quadrimestre do ano, se considerarmos apenas a parcial até novembro – indica uma expansão de 18% nos abates do Carne Angus.

Chama atenção também o excelente desempenho do mercado do Rio Grande do Sul. Com a retomada dos abates anunciada em março pelo Marfrig nas unidades de Bagé e Alegrete, o volume de animais certificados no Rio Grande do Sul expandiu-se 99%. “A valorização  da raça Angus vai ao encontro de nosso objetivo, que é dar acesso à proteína de qualidade a consumidores de todo o mundo”, frisou Miguel Gularte, CEO da operação América do Sul da companhia, durante almoço realizado em São Paulo, em março, momento em que oficializou a retomada.

Você encontra esse e mais conteúdos do Anuário Angus 2019 aqui.

Crédito: Carolina Jardine

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